Com olhar sereno, barbas compridas e grisalhas e um ar de sensata experiência nata de grandes pessoas, Rizzo exala uma aura birdwatcher. Esteticamente e conceitualmente ele é um observador de aves daqueles dos quais nos orgulhamos de ter em nosso país. Figura presente quando o assunto é Ubatuba, esse experiente guia e capacitador é um estandarte da observação de aves, preservação e estruturação do turismo de observação da natureza. "Estamos há 300 anos estragando o planeta com a certeza que a natureza está aí para nos servir e apenas há 20 anos tentando nos educar em preservar" - É com este pensamento que as matas do litoral norte paulista, outrora apenas degradada, agora sorri. Com vocês, o Rizzo de Ubatuba.
1) Comece nos contando um pouco de quem é Carlos Rizzo, sua história, com o que trabalha, qual sua formação, orígem, há quanto tempo observa aves:
Primeiro quero agradecer a oportunidade oferecida pela revista de ampliar a divulgação do nosso trabalho.
Nasci em Itapuí SP em 1954 e em 1965 tinha 11 anos quando fiz a minha primeira viagem para observar a chegada da Progne subis no interior de São Paulo. As andorinhas foram as minhas primeiras aves de interesse. Estudei sociologia, mas não sou graduado, sou marceneiro dos poucos formados e diplomado. Marcenaria é uma tradição na família.
Mudei para Ubatuba em 1980 e aqui descobri a observação de aves em 1981 na Fazenda Capricórnio. Em 1995 consegui adquirir uma parte da Fazenda e decidi me dedicar a observação, primeiro com a consolidação das listas que encontrei e depois com a pesquisa. Depois fui conhecendo as aves que já sabia o nome e depois as vocalizações.
Fiz tudo ao contrário, aprendi os nomes, depois as aves, depois as vozes, mas aprendi.
2) Quando falamos no nome Carlos Rizzo, logo associamos à cidade de Ubatuba em São Paulo. Ubatuba tem importantes registros como o recém-descoberto Apuim de costas pretas, além de outros que falaremos mais tarde, qual a importância desse município para a avifauna nacional?
Hoje Ubatuba vai muito além do meu trabalho, continuo sendo somente o mais barulhento, temos muito mais gente envolvida: Dimitri Matoszko, Jonas D’Abronzo, Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Parque Estadual da Serra do Mar, Ilha Anchieta, Sindicato do Hotéis (SINHORES) Associação dos Restaurantes, Associação Comercial, Ubatuba em Revista só para citar alguns. Para se ter uma idéia quando foi lançado o wikiaves o Dimitri foi o primeiro a se cadastrar e eu o segundo de Ubatuba, ficamos nós dois um bom tempo. Hoje temos 97 pessoas de Ubatuba postando no wikiaves
Basta ver as estatísticas do wikiaves, Ubatuba está em terceiro lugar na classificação nacional, além disso Ubatuba está no eixo Rio-São Paulo o que facilita muito aos observadores dos dois maiores centros do Brasil.. Porém o wikiaves é uma amostragem das ocorrências, não é um checklist do local. Todo município que pretende desenvolver a observação deve ter e manter seu checklist. O primeiro checklist de Ubatuba nós fizemos em 1995, foi atualizado em 2000, 2006 e agora mantemos ele digital (www.projetoaves.com.br) estamos com 563 espécies, 67 endêmicas (30%da avifauna nacional). Para a avifauna nacional, Ubatuba tem a importância histórica, tem diversidade e preservação, pois mais de 85% da área do município está em área de Unidade de Conservação.
Desde 1975 com o registro do anambézinho, Iodopleura pipra, sempre tivemos novos e agradáveis registros, em 2006 foi o apuim e tenho a convicção que logo teremos a Calyptura cristata.
3) Conte-nos sobre os projetos Dacnis e UbatubaBirds
Quando começamos em 1995 era Guiratyba (lugar de aves em tupi-guarani) mudamos para ubatubabirds em 2002 por conta das buscas na internet, um japonês jamais procuraria pelo nome tupi. Em 2004 um grupo de empresários reconheceu a atividade de observação como uma boa alternativa para o turismo de baixa temporada e solicitou aos candidatos a inclusão do item na administração. O prefeito eleito em 2005 manteve a palavra a observação de aves foi para a secretaria de turismo, e no ano seguinte para o Meio Ambiente onde está até hoje. Nosso projeto na administração chama-se “Abrindo janelas para o Mundo” e trabalhamos em quatro vertentes: Educação Ambiental nas escolas (mais de sete mil crianças capacitadas) Envolvimento com as comunidades do entorno das Unidades de Conservação no Município, como guias, receptivo e artesanato utilizando o Turismo de Base Comunitária, manutenção do checklist atualizado, e geração de mídia positiva para a cidade.
O Projeto Dacnis é uma ONG fundada em 2011 com o objetivo “Mata Atlântica” em sua totalidade está instalada num bairro afastado e pretende envolver a comunidade com conhecimento e parceria na preservação. Tem um lado forte de pesquisa pura. Faço parte dela na área de aves na Educação Ambiental.
4) A sociedade e o turismo brasileiro está preparado para acolher a prática do birdwatching?
Vou falar por exemplos reais de o quanto estamos envolvidos. Outro dia parei numa trilha completamente abandonada e deserta. Quando saí do carro vi três sujeitos saindo do mato e vindo na minha direção. Tive a certeza que tinha entrado numa fria, mas disfarcei e fiquei olhando para o mato. Eles foram se aproximando e conversando alto, até o momento que ouvi um deles falar: Fala baixo! O cara lá é observador de passarinho! Passaram por mim calados, me cumprimentaram com respeito e, foram embora.
A Marta Argel esteve este final de semana em Ubatuba e estava me contando que ficou impressionada com o conhecimento sobre as aves demonstrado pelas cozinheiras e arrumadeiras da pousada onde ficou. As comunidades do entorno do Parque se sentem naturalmente incluídas na observação. Isto é uma coisa que sempre me surpreende. O brasileiro é um observador nato, impossível não ser com tanta natureza que temos a nossa volta, faltava ferramentas às comunidades, faltava informações, faltava diálogo e o que vemos hoje é o envolvimento de todas as camadas da população.
Teve uma escola de Portugal fazendo estudo de caso com a observação de aves aqui em Ubatuba. Quando me perguntaram sobre o envolvimento da comunidade, convidei para dar uma volta pela cidade.Voltaram impressionados com a quantidade de gente que veio conversar com a gente. Esse é um diferencial de Ubatuba.
5) Você acredita que o Birdwatching cresceu no Brasil nos últimos anos? Quais fatores influenciaram seu crescimento?
Cresceu muito e vai continuar a crescer mais ainda!
No ano de 2000 fizemos uma pesquisa para traçar o perfil do observador de aves que visitava Ubatuba, naquela época notamos que os estrangeiros eventualmente dormiam uma noite na cidade, em 2010 notamos que o turista estrangeiro tem ficado na cidade de três a quatro dias. Em 2000 não havia turista brasileiro, em 2010 o brasileiro já apareceu com força total, inclusive superando os estrangeiros.
Acho que uma série de fatores foram colaborando para isso. Hoje em Ubatuba o turista estrangeiro se sente em casa (em 2000 era um ser estranho) Todo o receptivo de Ubatuba foi capacitado para este tipo de turismo, tenho vários relatos de estrangeiros que ficaram felizes por serem reconhecidos e respeitadas pelas crianças e pela comunidade isso esta refletido na permanência na cidade utilizando nossos serviços.
Nosso primeiro Festival de Observação em 2006 teve umas duzentas pessoas, o 6º em 2011 envolveu mas de 10 mil pessoas aqui em Ubatuba.
De todas as crianças que trabalhamos nesses anos saíram vários observadores, eles me encontram pelas ruas e vem correndo contar as novidades. Os pais ficam impressionados com o interesse dos filhos, vem perguntar de binóculo, de máquina fotográfica para os filhos e muitos deles passaram a observar a partir dos filhos.
6) Existem muitas diferenças entre os birders brasileiros e "gringos" ? Quais são?
Acho que não tem muitas diferenças, pois basicamente todos são observadores, o estrangeiro utiliza mais o binóculo ao passo que o brasileiro usa mais a câmara fotográfica, muitos dos brasileiros são fotógrafos que utilizam as aves como tema e não são observadores, do mesmo jeito que muitos estrangeiros são simples naturistas.
Temos que considerar que no exterior a atividade de observação se desenvolveu numa época em que o binóculo era a melhor ferramenta e que o brasileiro começou a observar numa época com acesso a inúmeras e mais avançadas tecnologias. O brasileiro fotografa, posta no wikiaves, troca comentários com o Brasil inteiro, e assim, estuda as aves de uma maneira mais interativa. O estrangeiro carrega a imagem introjetada pelo binóculo, o brasileiro gosta de conquistar e mostrar o “troféu”. Claro que temos grandes diferenças culturais, mas não vejo diferenças significativas como observadores. Muitas idosas dos Estados Unidos cuja idade já não permite caminhadas observam as aves que vocalizam nos filmes comerciais, fazem a sua lista e trocam com as amigas. Com certeza elas não são menos observadoras do que nós. Como diz o Guto Carvalho observar é um estilo de vida, e completo: Observar não é um padrão cartesiano. Relaxa e observa que você vai relaxar mais ainda, é bom pra caramba!!
7) Mais observadores de aves no Brasil significa mais conservação do meio ambiente?
Neste primeiro momento significa apenas mais conhecimento. Muitos brasileiros estão aprendendo “Brasil” a partir das aves e alguns já estão atentando para a conservação. Temos que respeitar este tempo entre conhecimento e o ativismo. Tempos atrás muitos brasileiros que tinham possibilidade de viajar para o exterior, jamais pensavam em viajar pelo Brasil, antes o interior do Brasil era coisa de natureba, pescador ou cientista, hoje é lugar de turista de observação. Antes o turismo de Ubatuba era apenas sol e mar no verão. Hoje muitas pessoas que nos visitam fora da temporada de verão, não tiram os olhos da mata e só olham para o mar em caso de aves marinhas. Se compararmos os estragos permitidos, a noção de preservação é muito recente. Estamos há 300 anos estragando o planeta com a certeza que a natureza está aí para nos servir e apenas há 20 anos tentando nos educar em preservar. Somos doutores em degradação e ainda analfabetos em preservação. Aqui em Ubatuba a observação de aves é uma importante ferramenta para a Educação Ambiental, capacitamos mais de 200 professores, todo ano trabalho com cerca de 500 crianças e muitos professores já fazem trabalhos com a observação de aves sem nenhum envolvimento meu. O sentido da preservação pela valorização da beleza das aves é muito mais inclusivo e eficaz que os “nãos’ impostos pela lei.
8) Em 1996 houve um avistamento da Calyptura cristata em Ubatuba, que em mais de 200 anos desde o seu primeiro registro foi avistada somente três vezes. Desde lá até hoje nunca mais foi avistada esta espécie? Você acredita que ela está por aí ainda ou foi extinta? O que significaria encontrá-la de novo?
Mantemos um evento anual chamado “a captura da Calyptura” desta maneira vamos envolvendo os mais diversos setores da cidade. Mapeamos todos os locais prováveis e devemos receber torres para a busca. Claro que torço para que ela seja avistada, mas não podemos menosprezar os ganhos que estamos tendo em nome da Calyptura. Ninguém acreditava no Tijuca atra em Ubatuba, nós encontramos, todos diziam que a foto do Touit feita Dimitri era bicho de gaiola, olha a febre que virou!
Ainda por conta da Calyptura nós conseguimos a destinação de uma Unidade de Conservação exclusivamente para observação de aves. O Centro Cambucá de Observação criado em 2010 solidifica a parceria Prefeitura e Parque Estadual da Serra do Mar. Tudo em nome das aves.
9) O que você vê de diferente na prática da observação de aves daqui há 10 anos.
Aqui na nossa região, o futuro para é a implementação do Circuito das Aves que criamos no ano passado. De São Paulo ele começa em Mogi das Cruzes, passa por Salesópolis, Caraguatatuba, Ilhabela, seguindo para o sul: São Sebastião, Bertioga, Santos, São Paulo. Seguindo para o norte: Ubatuba, Paraty, Angra e Rio de Janeiro (que também pode começar por aqui). Tudo isso com vistas à Copa de 2014 e Olimpíadas. Acho que daqui para a frente vamos seguir com mais pé no chão sem o deslumbramento que a atividade nos acenou inicialmente.
Mas olhando o geral o mais importante é salientar a quantidade de jovens que o censo de observadores indicou que estão envolvidos com observação, eles são o futuro, eles vão construir a observação de aves no Brasil. Fico impressionado com o conhecimento e seriedade que tenho visto nesses jovens, isso é a coisa mais gratificante.
10) Deixe seu recado para os birdwatchers.
Visite Ubatuba, a capital do birdwatch!
www.ubatubabirds.com.br
Secretaria Municipal de Meio Ambiente (+55 12) 3833 4541






