A identificação de aves é um tema de interesse pra mim. Muito longe de ser uma autoridade no assunto, mas gosto de pesquisar sobre o tema e tento aprender o máximo que consigo. Esses dias estava vendo uns posts do excelente blog do David Sibley, e em um deles ele fala sobre a certeza em observações visuais. Lá ele diz que quando achamos ter certeza de que vimos uma certa espécie nossa mente tende a excluir qualquer elemento negativo e dá valor apenas aos positivos, aos que corroboram a identificação que vc “quer” que seja, e uma vez que essa percepção é formada e “confirmada” ela se torna praticamente imune a revisões ou correções, o que pode ser perigoso…
Certa vez no Parque do Zizo, a alguns meses atrás, eu estava na sede conversando com o pessoal quando olho em direção ao grande jatobá no alto do morro e vejo um gavião simplesmente enorme planando a baixa altura sobre a floresta. A minha primeira impressão foi do tamanho dele, era muito grande, tanto que até o Chico, dono da reserva, quando viu o bicho exclamou essas exatas palavras: “nossa, é um dinossauro!”. Em seguida o bicho virou bem de barriga pra gente, com o sol do meio da manhã batendo nas partes inferiores. Era branco em baixo, sem estrias ou outras marcas (embora não lembro de ter visto bem a cabeça). A cauda era longa, estava aberta em leque e mostrava barras pretas largas e bem definidas. As partes superiores eram escuras. As asas eram muito largas e grandes, brancas tbm com estrias nas penas de vôo, arredondadas e o bater de asas era muito pesado e lento, chegava a dobrar as asas. Planava com as asas praticamente retas em relação ao corpo. Não fosse o tamanho, provavelmente afirmaria que se tratava de um gavião-pato, relativamente frequente por aqui, embora poderia ainda ficar na dúvida de um imaturo de gavião-de-penacho, igualmente frequente. Tudo isso foi observado pelo binóculo por alguns poucos segundos. Corri uns 15 metros pra pegar minha camera pra fazer uma foto e confirmar a ID, mas na hora que retornei o bicho já tinha virado sentido contrário. No instinto fiz duas fotos rápidas, num ângulo e luz horríveis, não servem pra nada. Fiquei um bom tempo olhando pro céu, querendo ver o bicho novamente, mas nada. Nunca mais voltou. Deu pra comparar bem o tamanho logo depois pois passou um urubu-preto bem na região onde o gavião estava, e o urubu parecia uma andorinha de tão menor que era.
A essa altura minha mente já estava fervilhando. Passava por todas as possibilidades… gavião-pato, de penacho, imaturo de gavião-de-cabeça-cinza? Não, muito maior… aí comecei a ir pro lado do altamente improvável mas, da mesma forma, altamente excitante. Uma harpia? Não, pelo que sei harpias não planam… um uiraçu-falso então???? Pronto, naquele momento achei que tinha chegado a uma ID razoável, embora improvável em se tratando de Mata Atlântica. Comecei a pensar nas reais possibilidades de ter visto um uiraçu-falso. Apesar de ser Mata Atlântica e não Amazônia, estamos falando do maior bloco de mata restante, muitos e muitos km2 de floresta primária rica em outras espécies que poderiam servir de alimento pra um gavião desses, como jacus, jacutingas, tucanos, macucos, macacos, pacas, etc. Já registramos até onça-pintada aqui, pq não um uiraçu?? As cores e formato batem, o tamanho tbm (embora entenda que tamanho seja meio subjetivo, difícil de julgar) e o hábito de planar baixo sobre a floresta tbm…
Mas será que eu entrei nessa armadilha que Sibley mencionou? Será que eu quero tanto que seja um uiraçu que estou inconscientemente ignorando outros fatores? Eu sinceramente acho que não, acho mesmo que vi um uiraçu-falso naquele dia, até porque não esperava ver um uiraçu-falso alí e nem estava entre as espécies que passaram na minha cabeça quando comecei a pensar nas possibilidades. Mas como não tenho absoluta certeza, a ave ainda não vai pra lista de espécies do parque. Uma possibilidade levantada, com razão, por outros observadores experientes é que poderia ser um imaturo de águia-cinzenta, embora acho pouquíssimo provável, o habitat absolutamente não bate e tbm a falta de marcas na parte inferior, a cor branca pura e a cauda comprida e barrada não batem com águia-cinzenta. Quem sabe um dia não batemos uma foto do bicho pra confirmar a presença da espécie naquelas matas? Por enquanto, fica só a lembrança e vontade de que um dia o registro seja confirmado.
Autor: Octavio Salles
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